Filosofia cósmica do evangelho

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CAPÍTULO 12

"QUANDO EU ESTIVER EXALTADO ACIMA DA TERRA, ATRAIREI TUDO A MIM"

Essa "exaltação acima da terra" é, geralmente, interpretada como a crucifixão de Jesus. De maneira que o crucificado seria o poderoso imã que atrairia a si todas as almas (embora o texto não diga "almas" nem "homens", mas "tudo", incluindo os próprios reinos infra-humanos).


Revelam os autores dessa teologia que só conhecem a cruz telúrica do sofrimento de Jesus, e ignoram a cruz cósmica da vida gloriosa do Cristo.


Estabelecem o estranho e insolúvel paradoxo de que o sofrimento de Jesus atrairia todas as coisas. Esse ilogismo foi aceito, e continua a ser aceito tacitamente, por milhares e milhões de cristãos, através dos séculos.


Entretanto, sabemos, à luz duma lógica mais alta, que o sofrimento, sendo fator negativo, não atrai ninguém, mas repele a todos. Nunca um sofredor inspirou confiança a seus discípulos pelo fato de sofrer. O fraco não confia no fraco.


Sofrimento é sinal de fraqueza. Só quando o discípulo sabe que seu senhor e Mestre sofre por querer, e não por dever, livre e não compulsoriamente, é que ele tem confiança nele. Esse querer-sofrer, porém, supõe um grande poder, porque só um homem sumamente poderoso pode voluntariamente permitir que a fraqueza do sofrimento venha sobre ele. Um fraco não deve permitir derrota – só um forte pode aceitar ser derrotado, porque para ele nenhuma derrota é real, como é para o fraco; real é a vitória, a derrota é apenas aparente.


Só um forte pode permitir que pareça fraco.


Só um sábio pode permitir que o tomem por ignorante.


Só um imortal pode permitir que sucumba à morte.


Fraqueza, ignorância e morte, quando voluntariamente permitidas por um forte, sábio e imortal, são a mais estupenda afirmação de poder, sabedoria e vida.


Por isto, em última análise, nenhum redentor é redentor pelo fato de sofrer e morrer; ele é redentor unicamente pelo fato de vencer e viver. Sofrer e morrer são coisas negativas; vencer e viver é atitude positiva – a redenção, porém, só pode ser realizada por um fator eminentemente positivo. Uma vez que esse fator positivo existe em alguém com grande exuberância e plenitude, pode esse homem intensamente positivo permitir com serenidade e firmeza qualquer sofrimento e a pior das mortes, porque ele, antes de permitir o assalto desses seus agressores, já os derrotou totalmente.


Se só temos fé em Jesus crucificado, morto e sepultado, é vã a nossa fé, vã a nossa pregação, e estamos ainda em nossos pecados, porque não houve redenção. Entretanto, houve redenção, porque a redenção, iniciada negativamente pelo sofrimento e pela morte da sexta-feira da paixão, consumou-se e completou-se positivamente, pela ressurreição, na madrugada da Páscoa. O ocaso sanguíneo da sexta-feira foi redimido pela alvorada áurea do domingo. Não é o túmulo fechado o teste supremo e último da redenção – mas sim o túmulo aberto e vazio. Não é a cruz telúrica, plantada no topo do Calvário – mas sim a cruz cósmica exaltada sobre as nuvens do céu, aureolada de grande poder e majestade.


A cruz telúrica, presa ao Gólgota, lembra tristezas e lágrimas – mas a cruz cósmica, desprendida da terra e livremente suspensa no espaço, nos inspira hinos de júbilo, hosanas e aleluias de felicidade.


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O Cristianismo, assim como até hoje é conhecido, imperfeitamente, é ainda a religião da cruz do Calvário, tinta de sangue, banhada de lágrimas e envolta nas trevas que acompanharam a morte de Jesus. Um dia, porém, o Cristianismo virá a ser religião da cruz cósmica das alturas, símbolo de vida eterna, aureolada de luz, exuberante de vida e beatitude.


A cruz telúrica do Calvário, ainda presa à terra, pesada e amarga, é o emblema da nossa moral pré-mística, telúrica, incompleta, dolorosa, porque sem experiência direta de Deus – mas a cruz cósmica sobre as nuvens do céu é o emblema da ética pós-mística, espontânea, radiante.


Esta nos dará forças para suportar aquela. As glórias da ética pós-mística iluminam as trevas ou penumbras da moral pré-mística, de tal modo que esta, amarga e pesada em si, passa a ser suave e leve, porque o homem em contato direto com Deus se enche totalmente de suavidade e leveza do espírito do eterno Lógos que "ilumina a todo homem que vem a este mundo, e dá aos que o recebem o poder de ser tornarem filhos de Deus".


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Todo homem que consegue transformar a sua pesada e amarga cruz telúrica na levíssima e dulcíssima cruz cósmica, solve o enigma da vida e decifra a esfinge que ameaçava destruir-lhe a felicidade.


Mas essa transformação da dolorosa cruz telúrica na gloriosa cruz cósmica consiste essencialmente em que o homem desprenda essa cruz da terra e a faça pairar livremente no espaço – quer dizer, que transforme a sua estreita consciência individual na vasta consciência universal; que se convença de que não é cidadão desta terra, mas habitante do universo. "Aqui somos apenas estranhos e peregrinos – a nossa verdadeira pátria são os céus", escreve o apóstolo Paulo.


Uma vez superada a tradicional ilusão da nossa cidadania telúrica, e alcançada a grande verdade da nossa cidadania cósmica – todo o resto é espontâneo e fácil.


A serpente rastejante da consciência individual tem de converter-se na serpente sublimada da consciência universal.


De fato, sou cidadão do universo; aqui na terra sou apenas imigrante com "visto" temporário, de poucos decênios; por isto, quero cumprir, com a maior perfeição e alegria, o meu estágio terrestre, a fim de me preparar para outra missão que Deus me confiar em alguma das "muitas moradas" que há em sua casa cósmica.








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