Filosofia cósmica do evangelho

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CAPÍTULO 11

"O REINO DOS CÉUS É SEMELHANTE A DEZ VIRGENS"

Dez virgens aguardam a chegada do Esposo, em plena noite – a humanidade, virgem de fecundação espiritual, à espera das núpcias místicas com o divino Lógos.


Todas elas munidas das suas lâmpadas; cinco, porém, estão com as lâmpadas vazias, e cinco com óleo em suas lâmpadas – a humanidade, embora não apresente grandes diferenças externas, está internamente dividida em dois grupos, diametralmente opostos: uns, munidos do misterioso combustível, dessa luz potencial que pode, a qualquer instante, ser transformada em luz atual; outros, sem esse combustível, essa luz potencial, e por isto nada têm que atualizar no momento decisivo. Muitos homens possuem receptividade espiritual, antenas erguidas ao espaço, à espera duma onda divina, e, embora estejam ou pareçam estar dormindo fisicamente, estão espiritualmente acordados, sempre prontos a acender a sua luz potencial e sair ao encontro do Esposo. O sono dessas almas, com suas lâmpadas cheias de óleo, não é, a bem dizer, um sono real, senão apenas aparente; é uma vigília em potência, assim como o óleo é luz e fogo potencial. Mas o sono da alma irreceptiva, sem óleo, é um sono real, pesado, profundo, funesto.


E eis que, de improviso, à meia-noite, vem o Esposo [1] – à meia-noite, quando o sono é mais profundo e o despertar mais difícil. E só agora é que as virgens tolas percebem que estão sem óleo, quando até então parecia não haver diferença real entre elas e suas companheiras sábias. As trevas do pecado são as trevas do inferno, apenas com a diferença de que o pecador, devido à sua cegueira, não tem ainda a dolorosa consciência do seu pecado; o pecado é o inferno inconsciente, assim como o inferno é o pecado consciente; no momento em que se rasgar o véu da inconsciência o pecador está no inferno, sem nenhum outro aditamento ao seu estado a não ser o despertar da sua consciência para a terrível realidade creada pelo pecado. A vinda do Esposo é o momento crítico em que o pecado gostoso se converte num pecado doloroso;


antes desse momento, pode o homem gozar o inferno do seu pecado, porque está cego; depois, só pode sofrer o inferno do seu pecado, porque se tornou vidente. Mas o estado real da alma continua o mesmo, depois como antes;


acresce apenas a consciência nítida desse estado. Pecado é inferno potencial, inconsciente – inferno é pecado atual, consciente.


E as virgens tolas pedem às virgens sábias: "Dai-nos do vosso óleo, porque as nossas lâmpadas se apagam". Respondem-lhes estas: Não é possivel; ide e adquiri para vós.


Neste pedido das virgens tolas revela-se a sua extrema tolice e absoluta insensatez: pedem de empréstimo a experiência divina; querem que suas companheiras repartam com elas o tesouro indivisível e intransferível da consciência cósmica, do encontro pessoal com Deus! Como se houvesse contrabando e ilegalidade no reino de Deus! Como se alguém pudesse possuir o que não conquistou com esforço próprio, individual! Como se as núpcias com o eterno Lógos pudessem ser realizadas mediante "procuração bastante" de terceiros! Como se alguém nos pudesse lançar para dentro do céu, a pedido de outros e em virtude de "proteção"!


Não compreendem a verdade das palavras do Mestre: "A quem não tem tirarse-lhe-á até aquilo que tem". Nem compreendem o que disse o poeta: "Was du ererbt von deinen Vaetern, erwirb es, u mes zu besitzen!" (Goethe) – o que herdaste de teus pais, adquire-o, para que o possuas! Não sabem que, segundo os imutáveis dispositivos da Constituição Cósmica, ninguém pode entrar no reino dos céus sem estar plenamente maduro para esse ingresso, maduro em virtude da sua evolução interna, que ninguém lhe pode dar de empréstimo ou como simples favor. Também, que aproveitaria ao imaturo ingressar no reino da maturidade espiritual? Se um homem imaturo pudesse penetrar nessa zona, não estaria no céu – estaria em pleno inferno, num céu infernal, porque aquele ambiente celeste de maturidade espiritual seria para esse imaturo uma atmosfera infernal e insuportável, e esse infeliz condenado a um céu infernal se daria pressas para sair quanto antes desse horroroso ambiente celeste para se precipitar voluntariamente na sua querida atmosfera infernal, num inferno celestial.


Imagine-se o que aconteceria a um homem boçal que, de súbito, se visse no meio duma sociedade de artistas que falassem em Beethoven, Wagner, Mozart 5erdi, Chopin, Brahms, Bach, ou em Dante, Shakespeare, Goethe!


Quanto tempo toleraria ele esse céu das almas artísticas? Não arderia de saudades pelo inferno do seu clube de vagabundos, beberrões e colegas boçais?


A experiência íntima não é transferível. Quem tem de buscar o seu Deus sempre de fora de si, diz um grande iniciado, não o possui realmente, nem depois de o ter buscado. Quem não produziu de dentro da própria alma o seu saber sobre Deus e seu reino, nunca saberá o que isto seja, embora ouça as mais claras definições de Deus e do céu. O próprio Jesus, com a profundeza única da sua experiência divina, não conseguiu dar a seus discípulos essa experiência, nem mesmo em três anos de convívio diário; só preparou neles o ambiente para que, um dia, quando internamente maduros, pudessem receber "o poder do alto" – e os discípulos receberam essa força e luz no dia do Pentecostes, dez dias após a partida do grande Mestre.


Só pode receber quem tem – quem nada tem nada pode receber.


Não poderia a sementinha no fundo da terra reagir ao chamariz da luz solar se ela mesma não fosse intimamente solar.


Não poderia o olho ver a luz se ele mesmo não fosse produto da luz [2] .


Só o que é potencialmente divino compreende o que é atualmente divino.


Quem não descobriu Deus em seu próprio Eu nunca descobrirá Deus em Deus, nem no mundo externo. O nosso mundo interno é a chave para o descobrimento do mundo superno e externo. Neste sentido diziam os antigos filósofos helênicos: "Anthropos métron pánton" – o homem é a medida de todas as coisas.


* * *

* "Não pode ser", replicaram as virgens sábias, revelando a sua profunda sapiência cósmica. Não vos podemos dar do óleo da nossa consciência espiritual; "ide e adquiri para vós mesmas".


E as virgens tolas foram-se para adquirir experiência divina. Mas essa aquisição não é um ato momentâneo, senão uma atitude permanente. Não é um ato isolado, nem mesmo uma série de atos sucessivos – é uma atitude coerente, um hábito contínuo, um modo de ser, um estado fundamental da alma. Não é uma questão de fazer ou de ter – é uma questão de ser.


E enquanto elas iam adquirir o combustível da sua receptividade espiritual, terminou o ciclo evolutivo, a "noite", durante a qual, segundo as imutáveis leis cósmicas, era possivel adquirir esse óleo. "Trabalhai enquanto é dia; porque sobrevém a noite, na qual ninguém mais pode trabalhar. " Há, na epopeia da evolução do homem, e de todos os seres conscientes e livres, "aiones" (eons), eternidade [3] , épocas, ciclos evolutivos, em que cada um dos quais devem esses seres conscientemente livres realizar determinado avanço no caminho da sua evolução. Se falharem, serão relegados ao sheol, hades ou infernus, isto é, a um estado (não lugar!) inferior, escuro, baixo, espécie de estagnação evolutiva – até que amanheça o subsequente "aion", a próxima "aeternitas", período no qual continua a evolução, ou possibilidade evolutiva desses seres. Dentro do presente ciclo evolutivo não há possibilidade de "trânsito" do "céu" para o "inferno", nem vice-versa.


Só depois de esgotados todos os "aiones", se o indivíduo continuar na sua consciente oposição a Deus, inicia-se a sua trágica desintegração, a "morte eterna", dos livros sacros, a "metempsicose" de certas filosofias.


Quando as virgens tolas regressaram – notemos bem: elas regressaram! Quer dizer, continuaram ou quiseram continuar a sua evolução rumo ao Esposo – encontraram a porta fechada. Expirara o "aion" ativo, e começara o "aion" passivo, e elas ficaram do lado de fora, nas trevas da sua estagnação evolutiva, por não terem aproveitado devidamente o período da dinâmica progressiva. Mas elas não deixaram de ser livres, nem desistiram do desejo de evolver rumo à luz.


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Dizem as virgens tolas às virgens sábias: "As nossas lâmpadas se apagam. " Não dizem "as nossas lâmpadas não se acendem", o que seria de esperar.


Acendem, sim, mas não tardam de apagar. É um processo intermitente de luz e trevas. Não há luz permanente, sem a presença de óleo nas lâmpadas.


Essa parte da humanidade, simbolizada pelas virgens tolas, também acende a sua luz divina – mas é a luz de Lúcifer, não a luz do Lógos. A luz de Lúcifer (porta-luz) é a luz do intelecto – a luz do Lógos (luz do mundo) é a luz da razão.


Também o intelecto tenta acender a sua lâmpada, e acende-a de fato, porque é consciente; mas essa luz intelectual não é permanente, como a luz solar; é intermitente, como a luz de relâmpago em plena noite. Quando o relâmpago rasga, por um instante, as trevas da noite, aparecem os objetos circunvizinho " – mas logo depois as trevas parecem tanto mais espessas e impenetráveis quando mais intenso foi o clarão. O que o homem sabe de Deus à luz da inteligência é um lampejo momentâneo de conhecimento, precedido e sucedido por uma longa noite de ignorância. Mas, quando a experiência espiritual acende a lâmpada da razão cheia de óleo, então a luz é permanente, tranquila, serena, amiga, como um dia de primavera ou verão cheio de luz solar. É que a experiência espiritual, baseada na razão, não é um ato transitório, como são as luzes da inteligência, mas é uma atitude permanente.


O seu agir se identificou completamente com o seu ser. Esse homem crístico pode, em verdade dizer com o Cristo que estava em Jesus: "Eu e o Pai somos um. " Celebrou as núpcias com o divino Lógos. . .


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Os que creem em "penas eternas" – aliás incompatíveis com a "morte eterna", a desintegração do próprio indivíduo – ver-se-ão em grandes dificuldades com esta parábola, em que o Mestre apresenta o reino do céus como sendo semelhante a dez virgens. De fato, porém, apenas cinco entraram na vida eterna. E as outras cinco? Deixaram de pertencer ao reino dos céus? Certo que não, porquanto "o reino dos céus é semelhante a dez virgens", e não a cinco. Logo, as cinco virgens tolas continuam a pertencer ao reino dos céus.


Verdade é que, no presente ciclo cósmico não alcançaram a meta da sua evolução espiritual – o que não obsta a que, em outro ciclo, num novo dia que amanhecer após a noite, adquiram o necessário combustível para acender as suas lâmpadas e entrarem nas núpcias eternas.








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