Filosofia cósmica do evangelho

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CAPÍTULO 10

"OS INIMIGOS DO HOMEM SÃO SEUS COMPANHEIROS DE CASA"

O sentido imediato destas palavras do Mestre é o seguinte: quando alguém aceita o novo espírito da mensagem do Evangelho, norteando por ele a sua vida, facilmente entra em conflito com pessoas da sua família ou parentela que ainda não estejam dispostas a fazer o mesmo.


Entretanto, não se limita a incompatibilidade a esse terreno familiar.


Todo homem, depois de certa altura de experiência espiritual, entra fatalmente num ambiente de veemente polaridade ou antítese com a sociedade profana em que tem de viver. O grosso da humanidade vive num plano de evolução apenas físico-mental, guiando-se pelo testemunho dos sentidos e do intelecto, e ignorando os altos ditames da razão espiritual. Quem se eleva acima das vibrações primitivas dos sentidos e do intelecto, entrando na zona das intensas vibrações espirituais, está sempre em perigo de sofrer uma espécie de interferência de ondas, interferência que, em geral, se manifesta em forma de conflito de ideias e ideais, acabando por crear em torno desse bandeirante do Infinito uma atmosfera de frieza, hostilidade e incompreensão. Esse ambiente ingrato leva o homem espiritual instintivamente a um desejo de solidão e isolamento, onde possa cultivar e cultuar desimpedidamente essas coisas belas e queridas que, em horas de profunda contemplação, descobriu e que ama com todas as veras de sua alma. Esse homem anda mal acompanhado na sociedade, e bem acompanhado na solidão.


Os profanos e inexperientes, por via de regra, interpretam esse isolacionismo como "orgulho", "convencimento", ou "esquisitice". Para o homem espiritual, porém, é esse retraimento uma válvula de segurança, um instinto de autoconservação espiritual, porque ele percebe ou adivinha o perigo que há para seus ideais superiores de se contaminarem ou diluírem no meio da sociedade profana. É por esta razão, que, qual solícita Vestal do Fogo Sagrado, essa alma ampara carinhosamente a lâmpada divina do seu querido idealismo, preferindo a deserção e o banimento social à extinção do seu fogo sagrado.


Sendo que essa alma creou em si, pelo diuturno contato com o mundo divino, uma antena de grande vibratilidade, é natural que o contato com as rudezas e baixezas do mundo profano lhe causem grandes sofrimentos e lhe ponham em chaga viva o delicado Eu espiritual. O silêncio benéfico da natureza, a vastidão dos desertos, os cumes dos montes, a pureza da mata virgem – foram sempre os companheiros prediletos do homem que entrou em contato direto com o mundo do espírito.


A espiritualidade é a nossa maior glória – e também o nosso mais acerbo sofrimento. Enquanto não chegarmos ao supremo grau da nossa evolução, veremos sempre enflorados de crepe mortuária os alvos berços da nossa vida espiritual, seremos sempre mártires da nossa própria espiritualidade. . .


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Quando então esse homem tenta reatar o contato com o mundo profano, sem renegar as suas experiências sagradas – começa para ele a fase mais trágica da sua evolução. Como pôr o seu fogo divino em contato com as águas humanas sem que aquele se apague? Será possivel semelhante consórcio?


Por mais que ele conseguisse "esquentar" as águas profanas, nem por isto deixariam elas de ser um perigo permanente para o fogo, porquanto toda a água é anti-ígnea, quer seja fria quer quente. . . Só deixaria de ser um perigo se se convertesse em fogo. . .


Para muitos é relativamente fácil entrar no "terceiro céu" da espiritualidade – o difícil está em como sair desse céu externamente sem dele sair internamente.


Por mais estranho que pareça aos inexperientes, é bem mais difícil essa "saída sem sair" do que aquela entrada no "terceiro céu".


A "saída sem sair" requer tamanha força espiritual, uma tensão tal, uma força de coesão polarizada tão grande que poucos conseguem estabelecer esse equilíbrio dinâmico entre duas forças opostas. Se alguém pensa que o iniciado possa, sem mais nem menos, sair desse "terceiro céu" da sua experiência divina, prova que ele mesmo nunca entrou; porquanto o verdadeiro iniciado não pode sair, nem mesmo querer sair, uma vez que todo o seu ser se consubstanciou e identificou intimamente com Deus, ao ponto de poder dizer: "Eu e o Pai somos um". Em caso algum poderá sair internamente, embora deva sair externamente, por amor a seus irmãos.


Praticamente, está a humanidade de hoje dividida em dois campos: o dos materialistas, que ignoram o mundo espiritual – e o dos espiritualistas, que fogem do mundo material. A síntese entre essas duas antíteses é extremamente difícil, e são bem poucos os que a consigam realizar. A síntese entre o extremo profano e o extremo espiritualista seria o centro crístico, a harmonia cósmica do homem integral, equidistante da adoração servil e do desprezo hostil do mundo.


O homem que consegue viver no mundo sem ser do mundo atingiu o auge da sua força e da sua glória.


Mas, muito antes de chegar a esse grande tratado de paz universal, o homem terá de verificar, por largo tempo, que seus piores inimigos são precisamente seus "companheiros de casa", os elementos da sua própria natureza humana, e os outros componentes do gênero humano.


A Bhagavad Gita descreve simbolicamente a luta de Arjuna (o homem irredento) contra seus parentes, que lhe haviam usurpado o trono. E, no momento em que o jovem príncipe quer deixar cair as armas e desistir da luta, aparece Krishna (o Cristo redentor) e obriga Arjuna a lutar e derrotar seus inimigos, seus parentes ou "companheiros de casa".


Quem são esses parentes?


São todos os elementos humanos do corpo e do intelecto, que precederam e acompanham a evolução da nossa alma e tentam impedi-la da conquista do trono. Todos os nossos ascendentes e colaterais, sensitivos e intelectivos, conluiados contra a alma, procuram usurpar o trono do nosso Eu espiritual, do nosso Cristo interno, como o Evangelho descreve tão dramaticamente no episódio da tentação no deserto, conflito entre Lúcifer e Lógos.


Primeiro, temos de derrotar esses nossos domésticos hostis, para que, mais tarde, quando devidamente espiritualizados, os possamos integrar definitivamente em nosso Eu crístico, e assim terminar a construção do "novo homem em Cristo".








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